Isso tudo começou por
dentro.
Eu sabia, ela sabia, mas nenhuma de nós fez nada para evitar. Há dias
que a senhora Batista reclamava da escuridão sem fim, há dias que ela me dizia
que não queria mais respirar. E eu? Consultei padres, gurus e mães de santo. É
uma coisa passageira, perturbação de espírito, minha filha. Mande-a fazer uma
viagem, isso passa. E a senhora Batista foi do Ceará ao Rio Grande do Sul e tudo
o que consegui foi chegar mais queimada do sol. Aquela ladainha voltou o
sobrevoar nossas vidas, ela voltou a querer acabar com a própria existência. Tentou
mais de três vezes com remédios que só lhe faziam dormir e vomitar ao acordar.
Já nervosa e sobrecarregada perguntei Por que a senhora não corta os pulsos?
Tenho nojo de sangue, minha filha. E medo também. Não quero morrer assustada.
Isso tudo é cena, senhora Batista. Não é não minha filha, eu quero morrer.
Porém, um belo dia, senhora Batista acordou com um sorriso invejável, tomou
banho, escovou o cabelo e espanou toda a casa. Nesse dia, depois de meses, eu
saí para trabalhar. Cheguei em casa a noite com um belo ensopado pronto e com o
sorriso intacto de senhora Batista. A mesma cena repetiu-se por três dias.
Quando cheguei em casa na tarde do terceiro dia, na plenitude do silêncio,
sabia que havia algo errado. Então vi uma faca, sangue. A vertigem tomou conta
de mim quando vi o corpo robusto de senhora Batista estirado sem vida com um
bilhete manchado de sangue ao lado ‘minha filha, decidi lhe obedecer pelo menos
uma vez, e de fato, nem deu tempo de ter medo. O sangue escorreu e eu provei. O
gosto era bom.
Desde esse dia, tenho medo de tudo que é vermelho e vez ou
outra sonho com a senhora Batista, se deleitando com um copo do meu sangue.
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