segunda-feira, 19 de março de 2012

Vermelhos

Isso tudo começou por dentro.
Eu sabia, ela sabia, mas nenhuma de nós fez nada para evitar. Há dias que a senhora Batista reclamava da escuridão sem fim, há dias que ela me dizia que não queria mais respirar. E eu? Consultei padres, gurus e mães de santo. É uma coisa passageira, perturbação de espírito, minha filha. Mande-a fazer uma viagem, isso passa. E a senhora Batista foi do Ceará ao Rio Grande do Sul e tudo o que consegui foi chegar mais queimada do sol. Aquela ladainha voltou o sobrevoar nossas vidas, ela voltou a querer acabar com a própria existência. Tentou mais de três vezes com remédios que só lhe faziam dormir e vomitar ao acordar. Já nervosa e sobrecarregada perguntei Por que a senhora não corta os pulsos? Tenho nojo de sangue, minha filha. E medo também. Não quero morrer assustada. Isso tudo é cena, senhora Batista. Não é não minha filha, eu quero morrer. Porém, um belo dia, senhora Batista acordou com um sorriso invejável, tomou banho, escovou o cabelo e espanou toda a casa. Nesse dia, depois de meses, eu saí para trabalhar. Cheguei em casa a noite com um belo ensopado pronto e com o sorriso intacto de senhora Batista. A mesma cena repetiu-se por três dias. Quando cheguei em casa na tarde do terceiro dia, na plenitude do silêncio, sabia que havia algo errado. Então vi uma faca, sangue. A vertigem tomou conta de mim quando vi o corpo robusto de senhora Batista estirado sem vida com um bilhete manchado de sangue ao lado ‘minha filha, decidi lhe obedecer pelo menos uma vez, e de fato, nem deu tempo de ter medo. O sangue escorreu e eu provei. O gosto era bom. 
Desde esse dia, tenho medo de tudo que é vermelho e vez ou outra sonho com a senhora Batista, se deleitando com um copo do meu sangue.

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