segunda-feira, 19 de março de 2012

Mulher mulher mulher


Eu me redefino. Me reinvento com as pedras com as águas com as terras. Serei sempre eu sempre essa eterna ternura gigante mistério. Dava pena saber disso, lancinante era essa dor. Bastava que ele me jogasse me usasse e me largasse para que desse um fim ao meu ciclo quase ininterrupto. Como se todos os agrados e sopas e limpezas de banheiros e fodas não bastassem. Ele queria mais. E eu queria mais. Mas nenhum dos dois disse nada. Ambos davam as costas e ambos sofriam com essa dor. Fui marcada fui calejada. Sofri calada. E com as pedras que me jogaram não consigo construir meu castelo. Falta o cimento. Cimento é vontade. Vontade eu não tenho. Gosto de ver-me sangrar e cortar-me e lamber-me. Sou uma gata a ovelha desgarrada. A que lambe as feridas e cuida da própria vida. A que não foi embalada e jogada na vida. No dia em que eu nasci meu diabinho espetou minha bunda e me mandou aprender cedo. E eu fui. E andei. E apanhei. E conheci meu homem. Meu homem que já não é meu. E ele me conheceu mulher. Uma mulher que nunca foi dela, tampouco dele. Eu que sou espírito livre, mas não gozo da minha liberdade. O tipo de mulher que gosta de apanhar na cara. Eu gosto disso. Do sangramento e das lágrimas e das feridas. Eu gosto da solidão e quero o abandono como fiel companheiro. Meu homem amado que nunca foi meu dorme e ressona. Amanhã minha vida vai seguir e eu vou comprar mais carne para encher-lhe a barriga. Amanhã não irei acordar diferente tampouco feliz. Amanhã nem irei acordar, tendo em vista esse punhal que repousa ao lado da minha cama, pronto para ser usado, para liberar minhas vísceras, meu belo sofrimento, meu sangue podre. Meu silêncio de horror.

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