segunda-feira, 19 de março de 2012

Helena


Outra esquina. Outra pinga. Outro cigarro. Aquele era o nono cliente. Ou seria o décimo? Naquele abre e fecha de pernas, Helena quase esquecera como contar. No corpo, cicatrizes de quem ganha a vida no sexo.
Foram incontáveis bocas, algumas apagadas, duas ou três inesquecíveis. Uma confusão de roupas e suores e membros e gemidos e gozos. Cada esquina uma história, cada rua um destino. E naquela profusão de gente, Helena conseguia (sobre)viver.
Ela se apaixonara? Não havia como saber. Depois do primeiro aborto, a alma fica menos sensível. E na terceira vez que cuspia uma criança, Helena pensava se ainda restava alma naquela carcaça que ela chamava de corpo.
As cicatrizes das drogas, da bebida e da foda ficavam expostas para quem quisesse tocar. E Helena não fazia questão de esconder. Exibia tudo em decotes minuciosamente estudados. Aquela pele cor de jambo abrigava segredos íntimos dos seres mais fechados. Se não fosse puta, pensava Helena, seria psicóloga.
Helena passava seus dias como santa e suas noites como puta. Na lua cheia, as coisas ainda ficavam mais expostas. Era nessa hora que Helena virava loba, animal, mulher-bicho. Nesses dias as caçadas eram mais intensas, assim como o gozo e as vontades.
Nesses dias, em que a lua ficava mais branca que o normal, Helena fazia questão de exibir a vida de prostituta barata. A lua escrevia aquela história, que ela fazia questão de seguir marcando-se à ferro. E fogo. E medo. E solidão.

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