segunda-feira, 18 de junho de 2012

I -
Quem sabe algum dia eu te esqueça. Quem sabe um dia eu seja atropelada por um caminhão e perca a memória. Quem sabe um dia eu seja internada com Alzheimer e agradeça por esse blackout.
Quem sabe, em outra vida, eu não te ame mais.

II -
Quem sabe, um dia, você me esqueça. E aí você vai casar e ter um filho e um trabalho legalzinho.
Em outra dimensão, eu serei uma Hippie que vive de trabalho manual e mora na rua. E, talvez um dia, você irá passar por mim e vai me dar uma esmola. Eu estarei suja, mas meu olhar terá o mesmo brilho. Depois, você vai seguir seu caminho e eu lembrarei de você. Dos nossos beijos, e das três vezes que nós dormimos juntos e das manhãs ensolaradas.
Enquanto eu estiver comendo o pão comprado com o dinheiro da tua esmola, eu irei imaginar estar chupando o teu pescoço. Eu vou desejar você, ao menos uma vez.

III -
Quem sabe, um dia, você me esqueça. E aí você vai estar casado, com um filho e um bom trabalho.
Em outra dimensão, eu serei uma poetisa suicida e na praça haverá uma estátua em meu nome. E aí, um dia, sua esposa estará passeando na tal praça com seu filho e os pássaros estarão fazendo cocô na minha cabeça de estátua. Seu filho vai perguntar 'mãe, quem é essa?' e ela vai responder 'Essa é a Lady Di, meu filho. A moça que inventou a televisão. Ele vai dizer 'nossa mamãe, você é taãããããão inteligente!' E eles irão passar direto, seguir um caminho. A noite, ele vai te contar a história que a mãe contou, de como Lady Di inventou a TV. Você não vai lembrar de mim, e, mesmo no túmulo, eu ainda vou te querer.

IV -
Quem sabe, um dia, você me esqueça. E aí você vai estar casado, com uma filha e uma firma própria.
Em outra dimensão, eu serei uma escritora. Você terá meu livro enfurnado no escritório e sua filha, que chora por amor, irá encontra-lo. Ela começará a ler, mas logo irá enjoar.
Esse livro é meu, quem sabe. Sua filha viu minha estátua na praça e sabe minha história. Mas ninguém sabe o porque daquela estátua ali, e isso nem importa. Ela irá parar de ler o livro porque ele fala unicamente de você.
Acontece que esse livro não vende bem, é demasiado bobo, e a jovem escritora acaba se matando de desgosto.
Sua filha verá a notícia do suicídio nos jornais e os livros irão vender como água.
Nessa hora, você irá lembrar de mim. Dos modos que eu te apelidava, de tudo o que eu te escrevi, dos livros que eu li, da bagunça em minha vida.
Você vai morrer de saudades, e já será tarde demais.
Porém, mesmo morta, você ainda será meu sonho.

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